sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Ética e Violência

Até que ponto a violência na qual a sociedade brasileira está inserida é uma quebra de fato moral entre nós brasileiro? A violência da sociedade brasileira revela nossa herança cultural escravocrata? Ou, é um "bom" negócio, rentável para parte significativa da sociedade brasileira?
Entre os ricos se ganha com o tráfico internacional de drogas e armas, com a venda do medo em jornalismo sanguinolento e odioso, com a venda de condomínio fechados, com a lavagem de dinheiro em bancos e outras instituições financeiras.
Entre os pobres se ganha no varejo do tráfico, no assalto, no latrocínio, na corrupção, na segurança de supermercado.
A classe média tem o seu quinhão ao vender sistemas de segurança, ao monetarizar corrupção de algum guarda de trânsito para muitos motoristas alcoólatras, ao tornar-se agente policial do Estado, defensor público, advogado, intelectual que pesquisa a violência.
Enfim, economicamente a violência não pode ser justificada por nosso erro passado, nossa herança maldita ficou para trás. O excesso de passado é saudosismo, saudosismo é depressão.
A violência deve ser justificada pelo nosso interesse e conformismo presente. Nossa inércia de se acostumar e viver da coisa assim como ela está. 
Obrigado,
Rafael.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Consumismo e Ambientalismo





“Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a
crescer?  Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos?  Que necessidade tem de nós esta terra? Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo, não creio que as nossas preocupações ecológicas possam surtir efeitos importantes” .       Papa Francisco

Todos nós desejamos a felicidade para as nossas crianças, alunos, filhos, sobrinhos, ou o bonitinho que nos sorriu ao ver -nos patéticos adultos a passar.  Mas felicidade não é satisfação do consumidor. Felicidade não se compra, pois o que se compra se paga, tem custo.
Dentro das contradições para a existência dos humanos no planeta terra o ritmo de consumo e a ideologia do consumo colocam-nos, humanos, em situação de colapso existencial. Por certo, como cita o papa em sua encíclica, não é o planeta que está em perigo, mas a existência do homem neste planeta. Para isso, é necessária uma tomada de consciência, que a ameaça mundial se torne, um “sofrimento íntimo”.
            Contudo, tal consciência de si não é colaborada no cerne da ideologia propalada, a ideologia do consumo, que reforça os instrumentos de alienação que vão muito além do indivíduo alijado dos meios de produção para sua existência. A própria característica do humano enquanto animal multifacetado em potencialidades e capacidades na multidão se anula, pois na solidão não somos nada.
 Nunca uma sociedade foi tão homogênea, como a massificada pela cultura do consumo, como nos aparece no documentário “Criança a Alma do Negócio,” desde os modos de se vestir até os sonhos e ambições. Os homens parecem ser iguais, não se distinguem as cidades do mundo, ao observar seus habitantes e  as suas lojas.
O trabalho enquanto fator que impulsiona a individualização transforma o sujeito multifacetado de múltiplas capacidades e potencialidades em um sujeito unilateral e único, numa peça de engrenagem.  Mas nós sujeitos temos que cuidar da nossa própria existência, pois, não somos parte do produto feito.
Radicalizamos, o trabalho fazia parte da nossa preocupação com a própria sobrevivência, antes éramos trabalhadores pobres, desprovidos do meio de produção, agora somos sujeitos trabalhadores, com uma consciência enfeitiçada por signos de consumo e nossa realização ideológica, acaba atrelada ao consumo de produtos, de status de consumo que nos leva a padrões de endividamentos que nos detêm por anos.
        Uma das provas de como este tipo de alienação está enraizado nas atividades de nossa sociedade é o aumento significativo da legitimidade da nova ideologia hedonista e consumista pós-moderna. Segundo tais coordenadas culturais, cada indivíduo precisa estar apto e livre para buscar sua felicidade individual, que é reconhecida como o fim último e sentido da vida.

Seres cada vez mais parecidos com que Durkheim se preocupava ao tratar como “anomia sociais”, ou, Marx sobre “alienação” em relação aos outros homens , quando não se reconhece em seu aspecto mais fundamental, que é o trabalho, e quando ele não é reconhecido como parte essencial da vida humana e do ser humano enquanto gênero/espécie, então não só a própria vida é uma objetivação nociva, mas toda e qualquer vida já não tem seu significado.

Enquanto a educação for avaliada como a produtora de “recursos humanos” e não o palco de preocupação com as novas gerações e apresentar o conhecimento inclusive dos problemas para as crianças, no sentido do combate a alienação com a construção de uma consciência coletiva, a educação se mostrará inócua.

        Primeiro os sensibilizar (não omitir nem negar) sobre os aspectos mais  amplos dos problemas globais,  alguns problemas que precisam ser alertados às crianças nas escolas:
        Tendo ainda como perspectiva o aumento linear da população mundial, atrelado ao crescimento urbano, que ultrapassou população rural em 2013, a sobrevivência de todos, a segurança alimentar e a distribuição de alimentos e recursos essenciais ficará como?

 Temos que preocupar as crianças com as questões:

- Haverá alimentos para todos?
- Quem vai produzir alimentos?
- De onde virão  os alimentos para a cidade?
- Como virão para as cidades?

Se levarmos em conta a sociedade consumista tornou-se massificada e homogênea  também a ao adotar um padrão alimentar ocidental, em especial, os lanches dos EUA, cuja principal fonte de proteína é a carne vermelha e de carboidratos é a farinha de trigo refinada e o açúcar refinado, sabemos que esse tipo de alimento se produz com alto passivo ambiental, temos que preocupar as crianças com as questões:

- Que tipos de alimentos servirá para todos?
- Como repartir alimentos para todos?
- Se você, sua família e sua comunidade ficar sem alimentos, como vai fazer?
-  O que você está consumindo como alimento tem causado malefícios a sua saúde?
- Todas as crianças comem as mesmas coisas?


A demanda tecnológica nos levou a viver com necessidade de energia elétrica, a eletricidade é fundamental para a transformação das riquezas que proporcionam melhor eficiência na produção e manutenção da vida, bem como trouxe qualidade de vida para todos, contudo:

- Que tipo de força e potência temos que transformar em energia elétrica?
-De onde vem e como se faz a energia que faz funcionar o seu vídeo game?

Ainda que não aja consenso sobre o aquecimento global, as vidas nas cidades estão cada vez mais desconfortáveis e nocivas, pois o meio ambiente urbano e o meio ambiente em que as cidades estão inseridas estão exauridos e desarranjados:

- Como melhorar a vida na cidade e tornar a existência humana sustentável?


Apresentar as crianças a curiosidade o desafio e problema é  a melhor maneira de combater alienação consumista, a falsa felicidade sedutora e enganadora, pessoas felizes são aquelas consciente dos seus problemas e limitações, felicidade sem liberdade é enganação.

Referências:

CRIANÇA, a alma do negócio. Produção: Estela Renner e Marcos Nisti. São Paulo: Maria Farinha Produções, 2007. 90 min. Color. Port.  Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=KQQrHH4RrNc  > Acessível em 09/05/2016;

DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. Martins Fontes, 1977;

DOWBOR, Ladislau et al. Resgatando o potencial financeiro do país.Dowbor. org, São Paulo, outubro, 2015. Disponível em: < http://dowbor.org/principais-livros/ >Acessível em 09/05/2016;

FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Laudato Si': Sobre o cuidado da casa comum. Vaticano: Tipografia Vaticana, 2015.  Disponível em < http://www.crbnacional.org.br/site/attachments/article/2068/CARTA%20ENC%C3%8DCLICA%20LAUDATO%20S%C3%8D.pdf  > Acessível em 09/05/2016



MARCIAL, E.C. Megatendências Mundiais 2030: O que entidades e personalidades internacionais pensam sobre o futuro do mundo? Contribuição para um debate de longo prazo para o Brasil. IPEA, Brasília, Brasil, 2015. Disponível em < http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/livros/livros/151013_megatendencias_mundiais_2030.pdf  > Acessível em 09/05/2016;


MARX, Karl; GIANNOTTI, José Arthur. Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1978;









                                                                                                             



quarta-feira, 13 de abril de 2016

A Criança e O Projeto de Nação - Ensaio



Rafael dos Santos Borges 

I O Problema:

Nem sei dizer a essas crianças se ainda há nação, tampouco se há razão para termos uma nação. Contudo, se faz necessário dizer a essas crianças que não há razão para o ódio, o desespero, a mágoa e a competição. Estamos numa escola caduca, que guarda uma modernidade igualmente velha, em que até sua arquitetura, já foi denunciada por estruturalista, sobre tudo Foucault, como aniquiladora e conformadora de indivíduos ao trabalho, ao Estado e às instituições totais.  Porém, estamos na escola e não há melhor lugar para estarmos, se quisermos romper com as caduquices da modernidade, precisamos estar com os mais jovens.

II A família:

Antes, ou, em tempos recentes de modernidade as famílias partilhavam com o Estado a complementação para educação dos seus filhos, falavam de instrução, aprender, estudar, hoje as famílias confiam seus filhos às escolas a guarda de seus filhos, pois as demandas da sociedade pós-moderna (que também gosto de chamar de capitalista triunfante), dá ao indivíduo papéis múltiplos e que se concorrem, veja:

  • a mulher, trabalha, estuda e é mãe;
  • o homem trabalha, estuda, e é pai;
  • numa configuração que não os obriga a ser marido, esposa, mas, se há filhos, são obrigatoriamente pais; e,
  • as crianças, são filhos, de forma inerente, frágeis.
Não me arrisco em dizer que não há mais famílias, porém hoje elas são menores; menos solidárias (internamente, pais, mães e filhos, competem, Renato Russo, poeticamente cantou “você culpa seus pais por tudo, isso é um absurdo, são crianças como vocês”); mais solitárias, não há laços familiares ampliados na mesma geração e situação etária (como tios, primos, cunhados).
Mesmo o sentido semântico de família, oriundo do latim “famulus” , que pode ser entendido como criado, servo, obediente, não nos cabe mais, pois a obediência parece ser um valor obsoleto (os adultos são desobedientes, por exemplo, não pedem nota fiscal, para driblar os impostos).
A mudança de paradigma familiar atinge as duas classes sociais mais frágeis: a classe médiaque absorve os valores da classe alta, os adultos lançam-se em busca de signos de status e riqueza e acabam, num padrão de exigência de consumo, endividando-se e severamente alienados, não mais donos do próprio tempo, trabalham mais e mais, endividam-se mais e mais e assim, entram mais e mais nesse ciclo perpétuo que os afastam fisicamente dos filhos (por exemplo, matriculam o filho em uma escola bem cara para o manter ocupado, além de manterem-se num grau de prestígio e status cultural elevado, para isso lançam-se em mais projetos de trabalho que os afastam dos filhos); a classe baixa, os pobres, a pobreza sempre presente, os faz igualmente adultos se alienarem da educação dos próprios filhos, trabalham mais e mais, não acumulam riqueza, endividam-se para dar em conforto o que falta de tempo e atenção aos filhos, recorrem à escola pública, na qual confia a guarda dos filhos, porém,  essa lhes parece apenas um privilégio, não um direito, pois escola pública para pobres é recente, ao menos no Brasil, filhos de pobres, frequentam uma escola pública empobrecida em recursos e organização, contribuindo para herança maldita de um capital cultural desprivilegiado, contudo, a escola pública cuida, dá merenda, dá uniforme, dá material e  dá leite.
As discussões sobre sexualidade, não deveriam ser confundida com a discussão sobre família, esse tipo de organização social, tem como valor fundamental o afeto a proteção aos membros do seu grupo, em especial, velhos, crianças e doentes. Apenas por isso, qualquer instituição que proteja vale ser defendida, como família.

II O Estado:

Os Estado-Nação-Território como os conhecemos hoje foi configurado ao nascer do capitalismo, durante a modernidade, como no príncipe maquiavélico, a unificação de Portugal, um Estado forte protegia os interesses de uma burguesia ascendente, com os valores morais do lucro, do trabalho e das riquezas em ascensão. Tal configuração estatal já nascia com contradições e propostas de antagonismo, com o socialismo utópico de Thomas Morus , até chegarmos ao socialismo científico e, por fim, soviético. Agora, nesse triunfo do capitalismo, ainda que nos reste uma utópica Cuba, o socialismo, não vingou, veio a hegemonia do capitalismo suavizada no verbete Globalização.
Para as empresas, ou para os fluxos globais do capital, não há restrição de território, as leis estatais que protegem os Estados-Nação são facilmente negociadas por meio de políticos desprestigiados, vazios de referência ideológicas, facilmente comprados, que tratam por si  o poder de manipular leis em favor de interesses empresarias e especulativos.  No nosso tempo a configuração Estado-Nação-Território vive um interregno. Não são os partidos que são questionáveis, mas o próprio Estado e a Nação. Por isso ficam as dúvida: E os jovens que nascem nesse território? Sem escola, sem família, sem Estado? Parece que o fim do Estado, nesses tristes trópicos se reconfigura como periferização: daqui vinte anos, restará aqui os que não puderam ir para Europa e os velhos.
Contudo, um projeto grande, de Estado- Nação poderosa incorre o risco de aniquilar a criança, o sujeito, seus sentimentos e projetos de ser. Ao mesmo tempo em que o individualismo exacerbado em práticas liberais triunfantes, aniquila a criança, o sujeito ao abandonar na competição egoísta e na existência pelo consumo.
Em qualquer situação as crianças são os sujeitos frágeis.  Do pensamento clássico, se tem que: “qualquer descuido com a educação é um descuido grave para a Pólis”, por Aristóteles, que em a Politica, Ética a Nicômaco, pressupunha que a formação do indivíduo era para Pólis, mas depois de cultivada a sua areté. Buscava-se o equilíbrio entre o indivíduo para a Pólis e a Pólis para o indivíduo.
Dentre as instituições criadas na modernidade sobreviveu forte a escola, que hoje serve para proteger, cuidar e preservar os mais jovens; para os apresentarmos ao mundo velho; fazer-lhes promessas de um mundo novo, e; dizer que muita coisa já é sabida, mas que há outros mistérios por desvendarmos.

III- A ética          

Da mesma maneira buscamos um referencial sobre ética e política em tempos e modernidade exacerbada ou tardia, posto que tal modernidade trouxe-nos horrores como as Guerras Mundiais e as lutas posteriores no contexto da Guerra-fria, o racionalismo científico, construído em projetos modernos e positivistas de escola que não redundou em crianças felizes nem em adultos satisfeitos.
Maria Rita keel (2002) recorre aos “Direitos Humanos” conclamados em 1948. Disso sobre valores, subjetividade, política e educação e lista dentre os artigos aqueles considera útil explanar para tratar de subjetividade, politica e direitos humanos, segue alguns tópicos e reflexões para a construção de uma escola ética e reflexiva que leve em conta os valores morais , num código originário de valores mínimos:
 - A dignidade humana é imprescindível para completar nossa existência e que incluí à todos na escola, de maneira igual, em princípio e direito;
- O espírito de fraternidade, pois só nos é possível viver em coletividade;
- Gozar de liberdade plena, pois a partir de bases mínimas, que são os os direitos humanos, se pode fazer algo, usufruir de seus direitos é saber fazer, saber o que fazer, ser capaz de fazer;
- Direito de ser em todos os lugares, guardando o respeito que sua liberdade é sempre acompanhada por liberdade do grupo, o indivíduo não precisa se oprimir para viver;
- Nós humanos somos mortais, nossa linguagem nos da uma condição imortal, mas nós só existimos na pluralidade, nossas obras devem levar em consideração a pluralidade da vida planetária e viabilidade para a continuidade da vida, pois todos os homens tem deveres para comunidade.
-  Assim,  a escola busca ser um ambiente  feliz, que não oprima, formate e persiga.

A escola de todas as instituições que passam por crises profundas de existência, talvez, seja a que mais reflita sobre si, uma outra escola é possível, uma escola que atenda as demandas libertadoras, de busca da igualdade, do lugar da curiosidade e das inovações. Pode ser por isso, que as demandas sobre a escola aumentam, pois das instituições da modernidade ela tem se mostrado a mais sólida e confiável, do que o Estado, o Mercado e menos fragilizadas do que as famílias.

Referências bibliográficas:

ARISTÓTELES, Anon. política. In: Política. Martin Claret, 2001.

KEHL, Maria Rita. Subjetividade, Política e Direitos Humanos. In. SILVA, Marcus Vinícius de Oliveira. Psicologia e direitos humanos: subjetividade e exclusão. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=7b3apxuJWM8C&lpg=PA34&dq=Maria%20Rita%20Kehl%3A%20condi%C3%A7%C3%A3o%20humana&hl=pt-BR&pg=PA30#v=onepage&q=Maria%20Rita%20Kehl%3A%20condi%C3%A7%C3%A3o%20humana&f=false>  Acesso em 13/04/2015;


MARTÍNEZ, José Luis Calvo et al. Ética a Nicómaco. Alianza Editorial, 2001.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A MONTANTE OU A JUSANTE ?

           
Pelos idos dos anos noventa, frequentei o curso de bombeiros para oficiais, em São Paulo, com um ano de duração, em período integral. No curso foi-nos apresentado o mestre em hidráulica, que muito contribuiu para o alto nível do conteúdo didático. Porém, aluno não perdoa qualquer deslize do professor, no caso, o competente profissional tinha uma dificuldade em pronunciar, palavras com som de j, em especial o termo jusante e saía “zusante”. Repetia, com sobejo, a expressão “a montante ou a zusante?” Por troça, também nos perguntávamos – “ zusante ou a montante”. Por isso, jamais esquecerei que a montante fica a cabeceira de um curso d’água e a jusante do lado em que ele vaza.  
                Caminhando pelas margens do nosso riozinho urbano, indo de montante para jusante e voltando da jusante para montante, fico com o coração apertado de vê-lo tão agredido por pessoas que dependem dele e que, ao invés de olhá-lo com reverência, jogam nele tudo quanto é espécie de lixo. Lembro-me do tempo em que ele era fétido e expunha nosso constrangimento, em forma de excrementos a boiar pela sua lâmina d’água (de montante a jusante). Lembro-me das obras que acabaram por tubular os nossos dejetos, livrando-nos daquele constrangimento. Aí os peixes voltaram e as pessoas admiravam os peixes, mas continuavam a jogar lixo. Então a natureza produziu um evento para nos ajudar a repensar nosso comportamento com o riozinho e mandou-nos a estiagem de 2014. 
                Em vão, tentamos ouvir a cantiga dos sapos, arautos seguros da chuva (sabem mais que as moças da Globo), e os sapos não cantaram ou cantaram pouco. Veio julho, não choveu; veio agosto, não choveu. Vai chover em setembro, não choveu e, em outubro, também não. O riozinho voltou a feder – seriam esgotos clandestinos lançados nas galerias pluviais? Já houve isso. É um caso para o nosso departamento de água, chamado de ambiental.
                A água está acabando e vamos ter racionamento, é quase certo. Será que depois, depois do aperto, da aflição haverá planejamento? É bem incerto.
                Um planejamento bem articulado deveria considerar o que os ambientalistas estão prevendo para todos nós, terráqueos. Principalmente para os terráqueos mais pobres, que moram do lado de baixo da linha do equador. Dizem que haverá períodos prolongados de estiagem e chuvas intensas, de quando em quando. Será que já estaria havendo? Dizem os mesmos ambientalistas que, em 2025, estaremos nesse futuro medonho – sem água. O bom planejamento deve considerar a pior das hipóteses e mais um pouquinho. Será que já deveremos nos coçar ou deixa para lá. Isso é coisa de quem não tem o que fazer.
                E a solução para nossa água, estaria a montante ou a jusante?  
                A montante, temos boas chances de atenuar o problema e até resolvê-lo de vez. A Represa do Recco está lá, testemunha de uma época de muita água, que necessitava até ser contida. A represa de contenção está lá ainda, meio abandonada, meio sem sentido útil, mas está lá e pode ser recuperada e transformar-se em represa de reserva. Pode ainda conter alguns fossos, formando volumes mortos, para perenizar o fluxo de água, nos períodos de seca. Mais a montante da represa, cuidar das nascentes, dos merejos, dos olhos d’água, da mata ciliar, numa prática moderna, a que se convencionou chamar de “plantar água”. Procurar os proprietários das terras adjacentes e formar parcerias, conceder isenção do ITR, enfim buscar soluções, igual ao mote da propaganda do nosso banco oficial –“bom para todos”.   
                E a jusante? Também temos enorme potencial de complementarmos a nossa solução. Ouvi de uma pessoa, a quem acompanhei, em apoio logístico, nas sondagens de possibilidades de captação da nossa água a partir do Cachoerinha, que a água usada do parque aquático, depois de sofrer toda carga de fluidos corpóreos dos banhistas - sangue, pus, suor, urina, fezes, esperma, saliva, bronzeadores, produtos de limpeza e demais eteceteras, ainda está apta a, depois de depurada, ser considerada potável.  
                Não se fala aqui em alguns carros pipa, com 8, 10, 15m³ por cessão. A água extraída sob os nossos pés, pertence a todos nós. Seria justo que, sócios ou não sócios, tivessem a compensação do seu uso intensivo. Não seria nenhum disparate afirmar que o clube ou parque construísse uma torre com boa capacidade e recalcasse a água, mesmo a usada, e a fizesse subir graças à altura manométrica da torre, por tubos, hoje em PVC, de jusante para montante, ao longo do rio, dispondo-a na represa de captação, para o devido tratamento. Isso não é caro e, tecnicamente, é “bico” para um engenheiro civil, experto em hidráulica.  
                O futuro prefeito (2017-2020) deverá ter peito e descortino para encarar tal, esse desafio será o ideal de que necessitamos para iniciar o próximo mandato. Não pense diferente, o desafio atual é água na torneira, de forma perene, tal como gostaríamos de ver o nosso precioso Rio Ribeirão Olhos D’água.
 No momento, só nos resta a esperar o sapo cantar. Que o sapo cante com animação, chamando a fêmea para o acasalamento – prevendo que vai chover e haverá bastante água. Boa farra, sapo!
                Explicando: quis, através do preâmbulo, noticiar que não sou especialista no assunto que trato, mas possuo algum conhecimento, rudimentos, coletados em vivência profissional, me permitindo abordar um tema, que pede um tratamento mais específico e com conhecimento bem além dos meus. Faço-o com o escopo de contribuir tão somente, sem destoar da realidade ou afirmar falácias ou impropriedades. Talvez provoque alguma discussão profícua, mesmo me corrigindo naquilo que afirmo. 

                Afonso de Jesus Borges (66) – oficial aposentado da PMESP e do Corpo de Bombeiros.  

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Estágio e Compromisso Com a Educação


Há muito os empresários do Brasil reclamam da educação como fornecedora de uma mão de obra de má qualidade, como se a sociedade mal educada e mal formada fosse outra e não aquela em que ele empresário e sua empresa estão inseridos. Os rankings sobre educação sustentam o discurso, que já se tornou lugar comum, de que a educação é um grande entrave para o desenvolvimento do país. Assim sendo tão grave, tal problema só pode ser resolvido por toda a sociedade, cabendo ao Estado promover educação pública de qualidade (como é a realizada pela Fatec de Rio Preto e Etec de Olímpia) e aos sujeitos assumirem seu papel de educandos e educadores. Nesse sentido existe a possibilidade de estágio dos estudantes da educação profissional nas empresas, que podem receber um profissional que está preocupado com sua atuação, que tem na sua inexperiência uma qualidade e o empresário agir como um educador, que pode contribuir para formação de um profissional que ele idealiza.

Para tal existe a modalidade contrato de estágio que segundo a Lei nº 11.788, de 25 de setembro de 2008, “estágio é ato educativo escolar supervisionado, desenvolvido no ambiente de trabalho, que visa à preparação para o trabalho produtivo de estudantes”. (BRASIL, 2008), por ela o estudante trabalha por seis horas por dia, sob a supervisão de um profissional competente já formado da empresa, é uma excelente forma de empresa de qualquer porte ter segurança em seu processo de seleção de funcionários, aliás os estagiários que são efetivados inserem vínculo de responsabilidade e afeto com a empresa. Em dois anos de central de estágio já testemunhei vários estagiários que preferiram continuar na empresa em que estagiavam ainda que tivessem melhores propostas em outras. 

A educação que havia em duas gerações

O texto a seguir meu pai escreveu me usando como alter ego depois que disse a ele que pensava em problematizar sobre o preconceito que existe no Brasil sobre educação profissional técnica e tecnológica:

                Tempos atrás, foi-me solicitado que escrevesse algo sobre minha avó materna, num momento em que ela receberia uma homenagem póstuma. Algo como uma biografia ou perfil, que exaltasse sua postura de mulher resoluta e de pouca ou quase nenhuma escolaridade e que influiu decisivamente na formação de seus dez filhos, conduzindo-os ao sucesso.
                Naquele momento também, me via às voltas com a elaboração de artigo sobre educação, examinando num mesmo contexto de influência o ensino tecnológico e o humanismo, seus diferentes papéis e a mesma destinação no resultado.
                Cuidando da primeira tarefa, percebi que dois assuntos desconexos, tinham mais pertinência do que poderia supor. Ora, “latu sensu” minha vó foi exímia educadora, pois, em se tratando do mérito no êxito, ela atingiu alto grau de competência.
                Para enquadrá-la na minha linha de raciocínio (tese), necessitei recuar um bom período e acrescentar outros atores na cena, para ajudar compor o enredo e, assim, acabei esmiuçando os papéis dos outros personagens, protagonistas, num momento e coadjuvantes em outros.
                Zé Baiano, meu avó materno, era um bom e bem humorado homem, de porte físico avantajado, que, em época de vacas gordas, foi fazendeiro, sitiante, vaqueiro e capataz. Em outra época, em que as vacas emagreceram até sumirem, foi comerciante malsucedido, trabalhador avulso, migrante e braçal, pois a única profissão, chamada de lida, que lhe sobrara, era o trabalho de chapa, carregando e descarregando caminhões, mercê de seu porte físico.   
                O Insucesso de meu avó baiano foi bem parecido com a desdita do meu avó paulista. Esse, respeitável proprietário de terras, de família conhecida, que passou, de uma situação  estável a outras desconfortáveis. De sitiante, passou a arrendatário e pequeno produtor de arroz, com perdas por conta de mau tempo, à venda de sua pequena propriedade, até ao êxodo rural e ao deslocamento para a cidade, onde, sem nenhuma profissão e já sem forças para trabalho pesado, foi ser charreteiro ou cocheiro urbano. Veio com os poucos recursos que sobraram e com meta definida – fazer os filhos estudarem, visto que ele próprio era letrado, para os padrões da época e acreditava que esse seria o caminho.
                Voltando à saga meu minha vó e seus dez filhos, havia um acordo tácito entre o casal que o pai seria provedor e a mãe, educadora. Ela nunca se fez de rogada ou postergou essa função e a exerceu com extrema rigorosidade, ensinando aquilo que sabia de sobejo – trabalhar, honrar compromisso, ser honesto. Essas eram as primícias humanísticas que estabeleceu como balizamento para formação profissional e moral para cada um, que teria, dali para frente, pois, na dificuldade do provedor em desempenhar seu papel precípuo, seriam eles próprios provedores de si mesmo e do conjunto familiar.
                O ensinamento da matriarca valeu, pois, ante a insuficiente contribuição do Estado na formação de seus filhos, ela mesmo se incumbiu de mostrar e monitorar aquilo que seria um possível futuro profissional. Praticar pequeno comércio, executar pequenos trabalhos, em troca de alguma paga, foram meio de sustento e os fundamentos que poderíamos chamar de técnicas da prática lícita da sobrevivência. Então, não foi por coincidência e sim, por via de consequência que os seus filhos se tornaram exitosos comerciantes, usando as ferramentas que a mãe lhes entregara – trabalho, honra e honestidade, um legado e um diferencial no exercício da prática comercial, numa sobrepujança da ação humanística ao fator tecnológico.
Meu avô paulista, maltratado por uma doença recorrente, pouco podia contribuir para a formação ou mesmo para a manutenção da família e, assim, viviam do esforço coletivo e todos faziam algum trabalho para a subsistência, adiando o cumprimento da meta que era fazer os filhos estudar. Estudar ou trabalhar? Uma atividade indispunha a outra durante um certo tempo.       Num determinado momento, criaram-se os cursos noturnos, ginásio, colégio e houve a oportunidade de, num esforço desgastante, fazer-se os dois. O trabalho, que tinha também a função de ensino da profissão, era o lado empírico, que passou a ser melhorado pela escola, mesmo em condições inferiores, pois os trabalhadores estudantes, na verdade, tinham dupla jornada de aprendizado: o empírico, na lide e a técnica, científico e humanístico, na sala de aula.
                Os filhos de meus dois avôs se valeram dessa mudança e puderam, mesmo de forma deficitária, forjar algumas ferramentas, que lhes permitiram alcançar seus objetivos, os quais, sem esse aporte tecnológico proporcionado pela educação seria bem mais custoso ou mesmo impossível de ser alcançados,
                Hoje, os estabelecimentos de ensino profissionalizante tentam, de forma sistematizada, reproduzir um modelo que, na época, surgiu da necessidade e ajudou a muitos, corrigindo uma falha do sistema então vigente, se é que, naquele tempo, algum sistema vigorava.

                Dessa circunstância havida na formação de nossos profissionais, surgiram duas figuras aproximadas pelas palavras parônimas e distanciadas pela falácia de um e da necessidade de outro: esperto e experto. Há uma procura pelo experto e um justificável receio pelo seu aparentado.  

Afonso de Jesus Borges. Professor de Língua Portuguesa, mas atuou como Bombeiro a vida toda, hoje professor voluntário do Convento São Boa Ventura de Olímpia-SP. Pai de Rafael dos Santos Borges (Professor de Sociedade e Tecnologia, MPCT, Ética e Lógica, Ética e Responsabilidade Profissional da Fatec de Rio Preto e de História, Filosofia e Sociologia da ETEC de Olímpia).

Educação Profissional: Para Além da Mais Valia.






A educação profissional no Brasil, em especial em São Paulo, em particular em Rio Preto e região tem acrescido possibilidades de desenvolvimento não apenas ao país ou as cidades, mas os sujeitos que a compõe. A educação profissional tem sido tratada por intelectuais, militantes da educação e estudiosos sobre educação como uma coisa de segunda ordem, em “Brasil 500 anos: Tópicas sobre educação” introduz-se e concluísse em capítulo destinado ao tema que a educação profissional foi orquestrada pela elite para agregar mais valia aos trabalhadores, porém, as circunstâncias dos últimos anos nos mostra que essa interpretação é simplista. Nos últimos quinze anos houve uma rápida ampliação dessa modalidade de ensino, e isso precisa ser documentado, dando voz aos trabalhadores que clamam e lutam por educação profissional, que de maneira alguma é oposta à educação humanística.
Quando por volta de 2000 fui à aula inaugural da minha graduação em história o professor Franklin Leopoldo, então diretor da FFLCH-USP, nos apresentou uma reflexão sobre a fundação da USP, enfatizando que o intento dos anos 30 era formação da elite dirigente desse país. Assim ficou na maior universidade pública do Brasil o sentido de que a educação está relacionada ao exercício do poder, logo, chegar à universidade, em especial a pública no Brasil é chegar a um centro privilegiado de poder.
O mundo mudou nesses setenta e poucos anos (entre a fundação da USP e a expansão da Educação Superior Tecnológica), porém educação ainda é exercício de poder, fundamental para o exercício do poder de cidadania numa sociedade democrática. Além do mais, as mudanças tecnológicas promoveram transformações na relação de trabalho e poder, a tecnologia e a educação vão além de agregar mais valia relativa ao trabalhador explorado, educação e tecnologia podem promover autonomia do trabalhador e práticas de produção inovadoras e solidárias. (Veja o caso dos softwares livres e emergência de uma cultura hacker transgressora e inovadora).

O trabalhador, ou estudante que busca uma formação profissional tecnológica ou técnica, não só está a buscar agregar valor ao seu trabalho, como também se mostra capaz e muito eficiente em problematizar sobre a sociedade em que vive e, por sua reflexão e trabalho, buscar superar os dilemas dela. Por isso termino esse artigo de opinião expressando que a educação tecnológica, técnica e profissional no Brasil não são bitoladas e alienadas pela ânsia capitalista. Ela é instrumento de desenvolvimento humano e de libertação dos trabalhadores e me arrisco em escrever que seus críticos das universidades tradicionais, estão defendendo mais seu filão do mercado, do que a educação de qualidade. Tal qualidade da educação pública profissional eu testemunho há mais de dois anos no meu “ganha pão”: ETEC de Olímpia e Fatec de Rio Preto.