sábado, 22 de fevereiro de 2020

Não nos conhecemos, mas nos contemplamos.

Eu já não sei dizer o que penso.
Se penso o que eu digo. 
Tampouco, digo o que eu penso. 
Nesses silêncios espero que ela entenda
tudo.
Das coisas que eu busco entender, 
mas não entendo e eu apenas sinto.
Não sei se vou, se fico, se rompo ou continuo.
Estou aqui em compasso de espera.
Aflito espero um pouco mais.
Quer ir embora? Quero que você vá? 
Desde que fique aqui. 

Ao retornar ao trabalho docente por vezes nós professores nos deparamos com frases assim como da epígrafe, (poeminha que fiz por compaixão dessa aflição dos meus alunos). Eles estão na escola, na faculdade, num tempo de espera, por outra formação, por colocação profissional, por mudança e esperança de vida. Dentre outras coisas tentam romper com antigos afetos, velhos amores, nessa ânsia por viver o desconhecido. Isso é uma parte do desenvolvimento, rupturas, continuidades, permanências.
Vivemos hoje uma época que exalta a rapidez, o fluído, efêmero e urgente, em um paradoxo sufocamos a juventude com tais expectativas, mas dizemos que o seu tempo é o agora. Cada um tem o seu tempo.
O livro, "Era do Cansaço," de Byung-chul Han, salienta que há um excesso de cobrança por positividade, produtividade e felicidade, deixando as pessoas mais deprimidas, improdutivas sobre o que realmente importa e infelizes, talvez, por uma desvalorização do tempo do ócio, que ele descreve como tempo de contemplação, silêncio e eu acrescento melancolia.
Justamente o tempo de ócio, do ócio produtivo é o tempo da juventude e o espaço é a escola. Na juventude e na escola temos a liberdade de experimentar e recusar, imaginar, contemplar e negar. Isso precisa ser ensinado na escola. Que há escolhas sobre o que fazer e o que deixar de fazer, além daquilo que é necessário fazer diante das próprias escolhas, por isso é preciso a contemplação e a imaginação.
Por exemplo, a escolha profissional, será que o jovem, o estudante, acredita que executando tais tarefas terá êxito? Irá fazer bem, bem feito, terá reconhecimento social- financeiro,  sobre aquilo que vai realizar?
Essas questões são importantes, elas vão além de divagações existências sobre o "quem sou eu?". Elas devem cumprir um vislumbre e contemplação sobre que vida eu desejo ter? Qual o meu papel social diante dos meus pares e do futuro da minha comunidade?
Na curta duração, devemos contemplar nosso dia, nele qual é a hora que  mais esperamos? O nosso tempo?
Na média duração, por exemplo, ao adentrarmos um curso, uma faculdade, percorremos esse caminho pois queremos chegar em qual lugar ou posição social? Estudamos para quê? Juntamos dinheiro para quê?
Na longa duração, que tipo de velho, de pai, de avô, de marido eu quero ser? O que vou deixar para os meus amados como segurança, esperança e exemplo? Terei a sorte de planejar minha morte?
Temos que nos contemplar diante do tempo.
Como professores devemos nos atentar para isso. Qual vida nossos alunos estão construindo e em que momento de vida eles se encontram?
A escola como um espaço de ensaio e de ócio deve se ocupar dos planos e desenvolvimentos de cada um. Chega dessa ideia de escola massificadora e formadora para empresas, indústrias e nações que já estão obsoletas.
Ao mesmo tempo que chega de deixarmos nossos alunos, nós mesmos, os jovens, perdidos num imediatismo, de decisões tomadas ao sabor de acontecimentos alheios aos nossos planos e desejos. Devemos ensinar nossos alunos a pensar, planejar executar, desistir, recomeçar para serem donos do próprio tempo e da própria vida.




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

BOM SENSO


BOM SENSO
“Tente colocar bom senso na cabeça de um tolo e ele dirá que é tolice” (Eurípedes)
Bom senso é um conceito usado na argumentação que está estritamente ligado às noções de sabedoria e de razoabilidade, e que define a capacidade média que uma pessoa possui, ou deveria possuir, de adequar regras e costumes a determinadas realidades considerando as consequências, e, assim, poder fazer bons julgamentos e escolhas. Podendo, assim, ser definido como a forma de "filosofar" espontânea do homem comum, também chamada de "filosofia de vida", que supõe certa capacidade de organização, auto-controle e independência de quem analisa a experiência de vida cotidiana.
O bom senso é por vezes confundido com a ideia de senso comum, sendo, no entanto, muitas vezes o seu oposto. Ao passo que o senso comum pode refletir muitas vezes uma opinião por vezes errônea e preconceituosa sobre determinado objeto. O bom senso está ligado à ideia de sensatez, sendo uma capacidade intuitiva de distinguir a melhor conduta em situações específicas que, muitas vezes, são difíceis de serem analisadas mais longamente. Para Aristóteles, o bom senso é "elemento central da conduta ética. Uma capacidade virtuosa de achar o meio termo e distinguir a ação correta, o que é em termos mais simples, nada mais que bom senso."
bom senso vai muito além da capacidade de distinguir o certo do errado. O bom senso está diretamente ligado à capacidade intuitiva do ser humano de fazer a coisa certa. Ele é um elemento que está ligado à moral, de maneira que o bom senso praticado por um cristão, poderá ser interpretado de uma forma diferente por um islã ou judeu. Também reflete a cultura e o meio a qual o ser humano vive. O bom senso não envolve tanto uma reflexão aprofundada sobre um determinado tema, lugar ou situação (isso já entraria no campo da reflexão), mas sim a capacidade de agir e interagir, obedecendo certos parâmetros da normalidade, face uma situação qualquer, guiando-se por um senso comum e quase que completamente intuitivo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Criticar é para quem pode!?


A atitude crítica[i]




A primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos fatos e às idéias da experiência cotidiana, ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido.
A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre o que são as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma interrogação sobre o porquê disso tudo e de  nós, e uma interrogação sobre como tudo isso é assim e não de outra maneira. O que é? Por que é? Como é? Essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica.
A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos de atitude crítica e pensamento crítico. A Filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do senso comum e, portanto, começa dizendo que não sabemos o que imaginávamos saber; por isso, o patrono da Filosofia, o grego Sócrates, afirmava que a primeira e fundamental verdade filosófica é dizer: “Sei que nada sei”. Para o discípulo de Sócrates, o filósofo grego Platão, a Filosofia começa com a admiração; já o  discípulo de Platão, o filósofo Aristóteles, acreditava que a Filosofia começa com o espanto.
Admiração e espanto significam: tomamos distância do nosso mundo costumeiro, através de nosso pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes, como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos perguntar também o que somos, por que somos e como somos.

Para que Filosofia?
Ora, muitos fazem uma outra pergunta: afinal, para que Filosofia? É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar, por exemplo, para que matemática ou física? Para que geografia ou geologia? Para que história ou sociologia? Para que biologia ou psicologia? Para que astronomia ou química? Para que pintura, literatura, música ou dança? Mas todo mundo acha muito natural perguntar: Para que Filosofia?
Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irônica, conhecida dos estudantes de Filosofia: “A Filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Ou seja, a Filosofia não serve para nada. Por isso, se costuma chamar de “filósofo” alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis. Essa pergunta, “Para que Filosofia?”, tem a sua razão de ser.
Em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma  coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata. Por isso, ninguém pergunta para que as ciências, pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação científica à realidade.
Todo mundo também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da compra e venda das obras de arte, quanto porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade.
Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a Filosofia, donde dizer-se: não serve para coisa alguma. Parece, porém, que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, através de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.
Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, na tecnologia como aplicação prática de teorias, na racionalidade dos conhecimentos, porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados.
Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e prática, correção e acúmulo de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas.
Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo.

Atitude filosófica: indagar

Se, portanto, deixarmos de lado, por enquanto, os objetos com os quais a Filosofia se ocupa, veremos que a atitude filosófica possui algumas características que são as mesmas, independentemente do conteúdo investigado.
Essas características são:
- perguntar o que a coisa, ou o valor, ou a idéia, é. A Filosofia pergunta qual é a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa, não importa qual;
- perguntar como a coisa, a idéia ou o valor, é. A Filosofia indaga qual é a estrutura e quais são as relações que constituem uma coisa, uma idéia ou um valor;
- perguntar por que a coisa, a idéia ou o valor, existe e é como é. A Filosofia pergunta pela origem ou pela causa de uma coisa, de uma idéia, de um valor.
A atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos rodeia e às relações que mantemos com ele. Pouco a pouco, porém, descobre que essas questões se referem, afinal, à nossa capacidade de conhecer, à nossa capacidade de pensar.

A reflexão filosófica

A reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de perguntas ou questões:
1. Por que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos? Isto é, quais os motivos, as razões e as causas para pensarmos o que pensamos, dizermos o que dizemos, fazermos o que fazemos?
2. O que queremos pensar quando pensamos, o que queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer quando agimos? Isto é, qual é o conteúdo ou o sentido do que pensamos, dizemos ou fazemos?
3. Para que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que fazemos? Isto é, qual é a intenção ou a finalidade do que pensamos, dizemos e fazemos?

Essas três questões podem ser resumidas em: O que é pensar, falar e agir? E elas  pressupõem a seguinte pergunta: Nossas crenças cotidianas são ou não um saber verdadeiro, um conhecimento?
Como vimos, a atitude filosófica inicia-se indagando: O que é? Como é? Por que é?, dirigindo-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vivem e com ele se relacionam. São perguntas sobre a essência, a significação ou a estrutura e a origem de todas as coisas.



[i] CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo. Àtica. 2000. p.8.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Lógica


Muitas pessoas são introduzidas à lógica e se depararam com as seguintes perguntas: O que é lógica? Para que serve a lógica? Qual seu objeto de estudo?

Tais perguntas devem fazer completo sentido, e revelam-se relevantes a todo aquele que se interessa não apenas por aprender uma determinada técnica, mas também por conhecer os seus fundamentos e o seu objetivo.

Você pode abrir um livro de lógica e deparar-se com a seguinte passagem:
1      (1)  p→q       A
2      (2)  ¬q          A
1,2   (3)  ¬p          1,2MP

Caso ainda não conheça lógica, a passagem pode fazer tanto sentido quanto a sentença:
“a melão senhora bombeiros de”.

Para que a passagem faça sentido, você precisa dominar a sintaxe da lógica formal e seus métodos de prova – e isto exige um estudo técnico, em que você introjeta certas regras e memoriza certas convenções.

No entanto, a lógica não é apenas um conjunto de regras e postulações.

A despeito da maneira como se expressa relações lógicas, a lógica ocupa-se de argumentos.

É perfeitamente possível que haja outros sistemas de formalização lógica, com outras postulações, outra sintaxe e sinais até mesmo por nós desconhecidos – porém, se este sistema é um sistema lógico, então ele se ocupa de argumentos, e mostra não apenas como avaliar argumentos, mas também como construir bons argumentos.

A lógica ocupa-se de argumentos, e pode-se inclusive afirmar que o objeto de estudo da lógica é uma certa classe de argumentos. Porém, de início não fica claro por que a lógica ocupa-se de argumentos. Eu posso estudar argumentos com a finalidade de desenvolver técnicas para torná-los mais persuasivos, por exemplo. Este pode ser o caso se tenho o plano de atingir algum objetivo que envolve convencer as pessoas de que algo é verdadeiro, ou de que algo é bom e valioso, mesmo não sendo.

Mas esta não é a finalidade da lógica na sua avaliação e estudo de argumentos: a propriedade dos argumentos que interessa à lógica não é a sua força persuasiva ou seu valor prático, mas sim a sua validade.

A validade é uma relação entre valores de verdade.
Ela é expressa ao se dizer que, dado que determinadas proposições (ou sentenças, ou afirmações) são verdadeiras, então necessariamente outra proposição é verdadeira. Assim, se houver uma relação entre as premissas de um argumento e sua conclusão tal que é impossível que a conclusão seja falsa quando as premissas são verdadeiras, então esta é uma relação de validade.
A lógica é o estudo da validade de argumentos. A lógica é uma instrumento e linguagem formal ( onde a forma é o importante), como a matemática, ocupa-se essencialmente de relações. A diferença está em que a lógica se ocupa de relações entre proposições ou sentenças, e não somente de números, funções geométricas, operações algébricas. E na lógica há apenas valores binários:
1 - 0
Verdade - Falsidade.
Na Lógica uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo, por isso na lógica não há contradição.
Uma coisa não pode ser verdade e falsidade ao mesmo tempo, nem em outros tempos e lugares. O valor lógico é universal e satisfatório.

A Lógica  é o estudo do raciocínio válido.

Utilizada em atividades mais intelectuais, a lógica é estudada principalmente nas disciplinas de filosofia, matemática, semântica e ciência da computação. Ela examina de forma genérica as formas que a argumentação pode tomar, quais dessas formas são válidas e quais são falaciosas.
Por fim, a lógica também é estudada na teoria da argumentação.
A lógica é frequentemente dividida em três partes:

O raciocínio indutivo:
          
método indutivo ou indução é o raciocínio que, após considerar um número suficiente de casos particulares, conclui uma verdade geral. A indução, ao contrário da dedução, parte de dados particulares da experiência sensível. De acordo com o indutivista, a ciência começa com a observação

O raciocínio abdutivo:

O raciocínio abdutivo geralmente começa com um conjunto incompleto de observações e prossegue para a mais provável explicação possível para o grupo de observações. Baseia-se em fazer e testar hipóteses usando a melhor informação disponível. Muitas vezes, implica fazer um palpite educado depois de observar um fenômeno para o qual não há uma explicação clara.

           O raciocínio dedutivo:
          
raciocínio dedutivo é uma das duas formas básicas de fundamentação válida. Começa com uma hipótese geral ou fato conhecido e cria uma conclusão específica dessa generalização.


          Leis Gerias da Lógica:

Contradição:
Não há uma proposição falsa e real ao mesmo tempo;
Meio excluído:
          
Ou é F ou é V não há um terceiro valor;

Funcionalidade:

O valor de um proposição composta P (q,r,s) é V ou F determinado o valor das proposições que a contém.


terça-feira, 19 de novembro de 2019

Filosofia com alguma finalidade

Quando nós conduzimos discussões filosóficas com estudantes dos mais diversos níveis e tipos de formação, desde adultos até jovens e crianças, a filosofia parecer ser envolta em pensamentos dissonantes (ninguém pensa assim), fora do lugar e distante da realidade, mas é justamente ao contrário, pois a filosofia como prática reflexiva de vida está grudada na realidade.
As questões filosóficas ajudam a configurar uma forma de pensar "quem sou eu" diante dos outros e da realidade, por isso, ajuda aos estudantes viverem de maneira mais satisfatória, menos perigosa, pois ao pensar primeiro sobre si, além do instinto, o  ser se humaniza e por isso se torna melhor.
  
Na charge acima a primeira pergunta parece ser um devaneio, uma pergunta ingênua e infantil, mesmo porque a curiosidade pueril faz parte da filosofia. A resposta do adulto, na charge, busca conformar a criança, em "você não tem idade para entender,"  ou seja, cresça e apareça, ou melhor, "conheça primeiro a ti mesmo", parafraseando Sócrates. A consciência de si é importante para expansão da vivência em sociedade. A última frase, nos devolve o humor, a sinceridade e doçura quando o adulto admite que nele também persiste essa indagação infantil-pueril, assim ele consegue se colocar no lugar do outro, o que pergunta, e esforça-se ao considerá-lo ao dar uma resposta completa.
As perguntas filosóficas estão contidas também em decisões práticas sobre as nossas vidas.
O Menino Maluquinho parece fazer perguntas filosóficas e etéreas, sem estar atendo as questões do cotidiano, da vida, mas os colegas dele parecem entender que as questões e as preocupações  do Maluquinho deveriam estar  mais atreladas ao cotidiano, as circunstâncias nas quais ele está inserido. Nesse sentido as indagações são práticas. 
Já na charge abaixo, as indagações  não são filosóficas, mas a resposta nos leva a questões profundas como: "O que é ser feliz?"
O planejamento da vida, parece ser restrito para o interlocutor do menino ao planejamento da profissão e da realização material, necessária da vida. Porém, a resposta do garoto remete à indagações existências ao sujeito que pergunta. A busca por felicidade é realista? 
Dessa forma as reflexões filosóficas para as crianças e em qualquer tempo, são saídas importantes para a realização da prática de vida, que vai desde a realização profissional, cidadã até a atuação política dos indivíduos.    

Rafael dos Santos Borges.
As charges foram retiradas do perfil tirinhas inteligentes no instragram.


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

As filosofias políticas


As abelhas, os peixes de cardumes, os  lobos, os macacos bonobos e outros animais vivem em "sociedades"  com até com um certo grau de complexidade, bem como há "sociedades" tais como as secretas, as limitadas e as sociedades assistenciais, mas essas "sociedades" são marcadas por organizações pré-determinadas  pela genética, instinto e sobrevivência natural (as primeiras) e definições pré- estabelecidades em contratos, com delimitações objetivas (as segundas). Pode haver tensão política interna nessas sociedades, mas quando se trata de política, trata-se de algo mais complexo pois, nossa Sociedade é Política e o tema é polêmico. Em política o destino comum está em jogo. Por isso, esse um tema que leva vida para filosofia e filosofia para a vida. Por ser um ser político o homem é um ser pensante.
Política: o Grego: πολιτικός / politikos, significa " de, para, ou relacionado a grupos que integram a Pólis ") denomina-se a arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; a aplicação desta ciência aos assuntos internos da nação (política interna) ou aos assuntos externos. Nos regimes democráticos, a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos com seu voto ou com sua militância.
Vamos ver algumas definições chaves sobre as abordagens em relação a Política de importantes filósofos:
Aristóteles em 1252 a.C. :
"Vemos que toda cidade é uma espécie de comunidade, e toda comunidade se forma com vistas a algum bem, pois todas as ações de todos os homens são praticadas com vistas ao que lhes parece um bem; se todas as comunidades visam algum bem, é evidente que a mais importante de todas elas e que inclui todas as outras, tem mais que todas, este objetivo e visa ao mais importante de todos os bens; ela se chama cidade e é a comunidade política"
Aristóteles idealizava política a tudo o que se relaciona à busca de ações para o bem-estar tanto individual como coletivo.
Maquiavel entre 1469-1527:
A política não é vista mais através de um fundamento exterior a ela própria (como Deus, a razão ou a natureza), mas sim como uma atividade humana. O que move a política, segundo Maquiavel, é a luta pela conquista e pela manutenção do poder. O Príncipe" tem um estilo elegante e direto. Suas partes são bem organizadas, tanto na apresentação quanto na distribuição dos temas. O procedimento principal do narrador é comparar experiências históricas com fatos contemporâneos, a fim de analisar as sociedades e a política. Em algumas passagens, o próprio autor se torna personagem das situações que descreve. Podemos dividir a obra política de Maquiavel em quatro partes: classificação dos Estados; como conquistar e conservar os Estados; análise do papel dos militares e conselhos aos políticos para manutenção do poder. Dizemos que Maquiavel é o fundador do pensamento político contemporâneo, pois foi o primeiro a pintar os fatos como são e não como deveria ser.
Tomas Mórus, 1478 – 1535:
Mas o pensamento de Tomas Mórus (1478 e 1535), traz para a Política uma ideia de idealização cunhada por ele por UTOPIA: e de evidente influência platônica e agostiniana), o autor apresenta uma ilha imaginária, chamada Utopia (u, negação; topos, lugar) que seria um protótipo da perfeição social, da mais plena harmonia em termos de convivência humana, um “não lugar” de rejeição do real (que está falido) e de esperança no ideal (que se deseja construir). Essa ilha acabou denominando o termo útil até hoje para significar uma sociedade perfeita ou ideal: Utopia!
O pensador vive sob um regime totalitário e escreve uma obra sobre uma sociedade que não existe representando por meio dela uma forma de governo considerada ideal, é possível que ele tenha escrito uma utopia, mesmo que sua obra não esteja diretamente vinculada à filosofia. Também pela definição posterior do termo, como gênero, podemos entender que a obra “A República” de Platão, embora escrita antes da obra de Mórus, trata-se de uma utopia, pois nela mostra-se a criação de uma cidade governada por reis-filósofos para responder à questão “o que é justiça?”.
Uma das marcas que indicam, em uma obra filosófica, a diferença entre uma utopia e uma Filosofia Moral ou Política é a exposição do pensamento: em vez de o autor de uma utopia trabalhar com conceitos e argumentos, ele expõe os conceitos aplicados a uma situação concreta.
Karl Marx 1818-1883:
Karl Marx (1818-1883) foi um economista, filósofo e sociólogo. Em 1848, junto com Friedrich Engels, publicou o Manifesto Comunista: um breve resumo do materialismo histórico e um primeiro esboço da teoria revolucionária que mais tarde ficaria conhecida como marxismo.
Marx é um pensador crítico da sociedade que procurou revolucionar não apenas a sociedade, mas as possibilidades políticas do pensamento, a partir de uma interconexão entre teoria e prática. Em Marx a atividade humana é força criativa, simultaneamente sujeito, ator e autor da história, mesmo que o seja sob as circunstâncias que lhe são histórica e socialmente dadas. “Por isso, Marx redigiu, no décimo primeiro aforismo das ‘Teses sobre Feuerbach’, que ‘Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo’”.
Dessa maneira Karl Marx implicou a filosofia com o engajamento político do filósofo.
Max Weber 1864-1920:
Já Weber (1864-1920) compreende como “política” qualquer tipo de liderança independente em ação. ... “Quem participa ativamente da política, luta pelo poder quer como um meio de servir a outros objetivos, ideais ou egoístas, quer como 'o poder pelo poder', ou seja, a fim de desfrutar a sensação de prestígio atribuída ao poder. Para esse pensador o Estado que se tornou referência para o pensamento político ocidental influenciando o direito, a sociologia e as ciências políticas e as teorias sobre as relações internacionais. Segundo o autor, o Estado se caracteriza pelo exercício do monopólio legítimo da violência sobre um determinado território. As formas de legitimação do poder são um componente importante da obra de Max Weber.
John Rawls 1921-2002:
O filósofo liberal norte-americano John Rawls (1921-2002) costumava dizer que a última coisa de que gostaria era de se tornar assunto de teses acadêmicas. Não podia evitá-lo, porém. O que a frase acima indica é que ele preferia que seu pensamento servisse de inspiração para que outros implementassem, ou levassem adiante, suas ideias, em vez de se limitar a alimentar teses e doutores. Dedicou boa parte de sua vida acadêmica, se não toda ela, à elaboração de uma teoria da justiça, à qual deu o nome de “Justiça como eqüidade” (Justice as fairness). Sua teoria foi apresentada de modo mais consistente, em 1971, em Uma Teoria da Justiça, e a partir daí se ocupou em responder às críticas e corrigir ou alterar aspectos dela. O conjunto de sua produção converge de maneira impressionante para seu tema central: como tornar as sociedades mais justas? Seus conceitos têm sido incorporados na teoria e na prática políticas.
Hanna Arendt 1906-1975:
Hanna Arendt em 1950, respondeu à pergunta “O que é política?” da seguinte maneira:
 “A política baseia-se na pluralidade dos homens. Deus criou o homem, os homens são um produto humano mundano, e produto da natureza humana. A filosofia e a teologia sempre se ocupam do homem, e todas as suas afirmações seriam corretas mesmo se houvesse apenas um homem, ou apenas dois homens, ou apenas homens idênticos. Por isso, não encontraram nenhuma resposta filosoficamente válida para a pergunta: o que é política? Mais, ainda: para todo o pensamento científico existe apenas o homem — na biologia ou na psicologia, na filosofia e na teologia, da mesma forma como para a zoologia só existe o leão. Os leões seriam, no caso, uma questão que só interessaria aos leões (...)
Brilhante! O homem arquetípico – o Adam-Kadmon, o Adapa sumeriano, o Adão bíblico – simplesmente não existe: é uma criação da cultura patriarcal. Os que existem são os seres humanos, com todas as suas diferenças, impurezas e imperfeições. Arendt percebe que Platão (e não precisaria dizer “até mesmo”) não pode apreender a política porque repete a tradição vertical que substitui o ser concreto pelo modelo. Platão, aliás, foi o mais prolífico dos pensadores apolíticos: o seu regime ideal (a aristocracia iluminada dos guardiães ou reis-filósofos que dirige uma sociedade de castas) foi pensado para este homem imaginário, que não precisa interagir com ninguém para ser um ser político. E isso porque, de fato, não o é – e sim um ser apolítico. A política é um tipo de interação. O homem como ser apolítico é a matéria-prima ideal da autocracia. No caso de Platão, do totalitarismo e do racismo”.
Outros filósofos teóricos que são importantes para entender a filosofia, seguem alguns desses:
·      Phillip Pettit , 1945, teórico político irlandês que está atualmente radicado nos Estados Unidos, onde leciona na Universidade de Princeton. Desenvolve proficuamente trabalhos nas mais diversas áreas como psicologia, moral e filosofia, mas tem obtido grande sucesso com suas obras sobre aspetos da participação política, controle e fiscalização do Estado e, principalmente, República, com seu "neo-republicanismo".
·       Slavoj Žižek (esloveno IPA: [ˈslavoj ˈʒiʒɛk] Ltspkr.png ouça, Liubliana, 21 de março de 1949) é um filósofo esloveno. Ele é professor do Instituto de Sociologia e Filosofia da Universidade de Ljubljana e diretor internacional da Birkbeck, Universidade de Londres. Ele trabalha em temas como filosofia continental, teoria política, estudos culturais, psicanálise, crítica de cinema, marxismo, hegelianismo e teologia.
·     Iris Marion Young (1949-2006). Era professora de Ciência Política da Universidade de Chicago e afiliada ao Gender Studies Center (Centro de Estudos de Gênero) e a seu Programa de Direitos Humanos. Sua pesquisa abrangia Teoria Política, Teoria Feminista e análise normativa de políticas públicas.
·      Nancy Fraser (1947) ma importante pensadora feminista, preocupada com as concepções de justiça. Argumenta que a justiça é um conceito complexo que deve ser entendido sob três dimensões separadas, embora interrelacionadas: distribuição (de recursos produtivos e de renda); reconhecimento (das contribuições variadas dos diferentes grupos sociais); e, representação (na linguagem e em todo o domínio do simbólico).

  Sites consultados:

S      https://brasilescola.uol.com.br/politica/politica-definicao.htm
        https://www.sabedoriapolitica.com.br/
   
     Bibliografia:
     
    SEVERINO, Antônio Joaquim. Formação política do adolescente no Ensino Médio: a contribuição da Filosofia. Pro-Posições. Campinas, v. 21, n. 1, p. 61, 2010.

DOWBOR, Ladislau. Esquerda e Direita frente à Ética. Pesquisa & Debate. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em Economia Política., v. 29, n. 1 (53), 2018. Disponível em https://revistas.pucsp.br/rpe/article... Acesso em 20/03/2020 HANNS, Luiz, Os perfins piscológicos de quem é de direita e de quem é de esquerda: Casa do Saber. Canal do Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qQ3ht... Acesso em 20/03/2020

  
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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Índio bom é índio morto


        Os cronistas europeus da época em que tiveram os primeiros contatos sistemáticos com os indígenas, narravam que esses consideravam os europeus, amigos ou inimigos, conforme fossem tratados: amistosamente ou com hostilidade. Essa visão de docilidade e imagem de índio bom é submisso, prevalece, mas o índio não é sujeito de direito.  
       Com o passar do tempo essa relação sofreu alterações, por exemplo, com a instalação do Governo Geral, em 1549, intensificou-se a escravidão dos indígenas nas diversas atividades desenvolvidas na colônia, gerando constantes conflitos - O mais famoso foi a Confederação dos Tamoios (1554-1567). 
        Mas a narrativa mística e ideológica (por isso mentirosa) das raças harmoniosas, dentre elas a do índio, nativo, gentio, cativante e indolente, não resiste a um olhar sobre a demografia do Brasil. Houve um genocídio,  porém romantizado ao ponto de ser naturalizado e estar, agora, em curso pleno. A Nação acha que está tudo bem, pois esse é o papel que cabe ao índio, imortalizado em Museu, restrito a reserva, ou simplesmente morto.
         Acredita-se que cerca de 3,5 milhões de índios habitavam o Brasil na época da colonização. Dividiam-se em quatro grupos linguístico-culturais: Tupi, Jê, Aruaque e Caraíba, segundo os Jesuítas, hoje (IBGE, Censo 2010), existem:

  • Total de indígenas: 817 mil
  • Etnias: mais de 300
  • Línguas: 274
  • Isolados: 82 referências; 32 confirmadas.
Mesmo depois de cinco séculos, os índios brasileiros permanecem sendo um mistério para o homem branco-europeu-invasor-dominante. Não se pode afirmar com certeza de onde vieram, embora a teoria da migração via estreito de Bering continue sendo a mais provável - mesmo tendo perdido a primazia e, principalmente, a exclusividade. Quando teriam chegado à América também é assunto ainda polêmico: 12 mil, 38 mil ou a 53 mil anos atrás? Ninguém sabe ao certo. 
A relação entre os brancos e os índios foi marcada por escravidão, submissão, conflito, extermínio, resultando no maior genocídio conhecido da história.
Até o século XX o contingente populacional indígena, caboclo, tradicional era significativo. Porém, o indígena de fato sempre foi tratado como empecilho:

Dos primeiros anos da colonização até a Lei de Terras (séculos XV-XIX) ocorre uma destruição radical das populações originárias, bem como a dispersão e diversas formas de migrações compulsórias, produto da expulsão de seus territórios. A Lei de Terras exerceu a função de institucionalizar formas de expropriações. Os povos que resistiram e adentraram os sertões e outras regiões de difícil acesso no país, durante o século XX, continuam ameaçados com os avanços de formas de exploração capitalista no campo. Os processos constantes de expulsão de indígenas levam-nos a compor uma massa de trabalhadores espoliados e em condições de extrema precariedade, seja nas pequenas ou nas grandes cidades. (SILVA,2018)

       O excerto acima faz parte de uma pesquisa acadêmica desenvolvida por uma indígena. Nele com muita sensibilidade e poder de síntese se resume que o índio vale menos do que terra, é é coisificado, valendo menos que gente.
      Na contemporaneidade da Nação republicana independente, foi criado no SPILTN - Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (1910) e posterior SPI – Sistema de Proteção ao Índio (1918), tais serviços estavam ligados aos ministérios e órgãos que tratavam das questões fundiárias,  com isso já denota que a questão da posse da terra, ou da capitalização da terra estava sobre os corpos e a vida dos indígenas.
        A Funai foi crida em 1967 papel de integrar os indígenas à sociedade dominante sob a tutela, dentro de uma relação paternalista e intervencionista, com ações assistencialistas de assimilação das sociedades indígenas, gerando uma macula de visão segundo o qual os indígenas devem ao branco submissão e estão em estado de dependência.
      A política indigenista no Brasil é ambígua, pois tutela o índio, restringe à reserva, de fato busca o proteger, porém, os indígenas não tem voz, quando reclamam são marginalizados e desapropriado do lugar de fala. A reserva traz em si o dilema de se revelar gueto, campo de concentração e oásis de proteção,  garantia de vida mínima. 
       Hoje 2018/2019 nota-se um aumento do genocídio, que está em curso, acentuando-se desde 2013, mas com aumento de 20% desde o ano passado. Em 2018, segundo o Conselho Indigenista Missionário (citado em reportagem do G1Natureza, listado abaixo), além dos 40% de aumento de conflitos em dados preliminares de 2019.
       Portanto, ouça o silêncio sobre o genocídio em curso no Brasil das populações indígenas. Silêncio esse causado pela ânsia sobre a terra, uma visão egoísta, atrasada e unívoca, por isso autoritária, de que a terra deve estar disponível para a mesma forma de exploração que os brancos europeus vivenciaram. A Nação deve saber respeitar e conviver com as outras nações internas, os brancos têm a maioria da população, do território e do poder econômico, deve a nação branca, reserva-se a viver como está, sem querer desapropriar, avançar, deve a Nação branca pensar em si, antes de se impor ao outro.
Segue também, uma série de imagens de um slide retirado do site do senado sobre a temática aqui exposta.

Referência Bibliográfica:
SILVA, Elizângela Cardoso de Araújo. Povos indígenas e o direito à terra na realidade brasileira. Serv. Soc. Soc.,  São Paulo ,  n. 133, p. 480-500,  Dec.  2018 .   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-66282018000300480&lng=en&nrm=iso>. Acesso em:  07  Nov.  2019.  http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.155
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